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A coisa mais importante das menos importantes

(Foto: Divulgação/Atlético-MG)
Começo essa crônica com a icônica frase - Futebol, a coisa mais importante das menos importantes -, ora atribuída ao não menos icônico Nelson Rodrigues, ora ao técnico italiano multicampeão Arrigo Sachi. Prefiro crer que o primeiro a cunhar e a dissertar sobre o assunto foi Nelson, nada contra o italiano, muito pelo contrário. Mas como diria o som do Paralamas: "O céu de Ícaro tem mais poesia que o de Galileu". Fico com o cronista, fico com o poeta, afinal, a frase trata-se de exagero, trata-se de uma comparação fantástica, trata-se de futebol. Um esporte hiperbolicamente hiperbólico, metoforicamente metafísico e ironicamente irônico.

Todo esse jogo de palavras, ora redundante - eu sei - foi intencional. Intencional na medida que o bom e velho esporte bretão de uma maneira sui generis, capta, muda, reverbera nossas emoções mais genuínas. Futebol vem de berço, amamos um time muito antes de nascermos, afinal pais, mães, avôs, avós e assim por diante cultivam essa paixão desde que Charles Miller desembarcou no Brasil com a pelota nos pés. E não se engane, mesmo os mais racionais dos homens tornam-se bestas (ou bestiais) quando o assunto envolve sua maior paixão.

Aquele que nunca discutiu com um amigo ou parente sobre aquele lance do foi gol, não foi gol que atire a primeira pedra. O soprador de latinha acertou ou não acertou, mesmo se cientificamente o cidadão estiver errado, se a coisa foi a favor do seu time, uma venda será posta em seus olhos. 

Confesso que já fui mais entusiasmado com isso. Confesso que vejo as pessoas passando um pouco do limite do aceitável com suas opiniões, muitas vezes xiitas. É um dilema quase freudiano, visto que, quando a coisa ficava apenas na gozação, tudo bem, é brincadeira, o dia acaba, o apito final é soado, todos voltam para casa para suas vidas de engenheiros, advogados, médicos, pedreiros, professores, artistas, etc... Essa foi a realidade que passei quase que minha infância e adolescência, década de 90 e início dos anos 00. Na era da arquibancada de cimento, era um misto de confraternização (visto que ali todos eram iguais, pobre, o rico, o negro, o branco), irreverência, zoação e sim, bestialidade. Presenciei brigas homéricas entre organizadas de times diferentes, do mesmo time, era horrível, sangrento, mas como diriam os mais antigos, havia alguma honra ali. 

No início eram apenas homens se esmurrando, não haviam armas de fogo, gente querendo matar, sim amigos... matar. 

Por outro lado, no que tange à confraternização, a partir do momento que o cimento foi substituido pelas cadeiras, as filas pelos computadores e o velho ingresso de papel pelo cartão de crédito, o sentido da palavra torcer vem se alterando, visto que ali não temos fiéis abnegados e sim consumidores com seus cartões personallité, que se acham no direito de vaiar se não acharem que as coisas vão bem e no direito de te criticar livremente se você tem uma opinião diferente. E essa crítica as vezes passa por cima do argumento esportivo e vai para o campo pessoal. Racismo, sexismo, entre outras formas de preconceitos encontram na cancha terreno fértil. Aquela barreira que sempre existiu entre o mundo real e o mundo do futebol tem passado um pouco do limite. Quando o assunto é futebol, certas coisas são perigosamente toleradas.

Nas redes que não balançam quando a bola vai ao fundo do gol - as redes sociais - tal constatação é mais grave. Ali o brasileiro, nada cordial (perdão aos historiadores), mostra sem vergonha alguma uma versão perversa. Não sei se a convulsão política entre coxinhas e petralhas ajudou ou atrapalhou no processo, o que sei é que o brasileiro médio, com acesso a internet, exprime um nível preocupante falta de educação, para não dizer burrice. Não importa seu argumento, se você falou algo contrário à opinião do sujeito, você é um anti (termo cunhado para atribuir aqueles com pensamento diverso ao do sujeito - ou seja, todos somos antis, afinal não se replica opinião). 

Confesso a vocês que quando entrei à equipe do Linha de Fundo, fiz porque queria compartilhar principalmente com os amigos Atleticanos minhas opiniões a respeito dos jogos, do time, de minhas paixões. Mas enfim venho encontrando em exemplos diferentes algumas reações que desanimam: "modinha, anti, burro, quem é você" são as coisas mais leves; gente que se aproxima nas redes sociais e, por pura desavença de opinião, te prejudica gratuitamente.

Meus leitores devem ter notado minha ausência nos jogos do Galo, de meus textos. Confesso que desanimei um pouco, não com o futebol, não com meu time de coração, mas com as pessoas. Esse texto  pode ser entendido como uma crônica, como um desabafo, mas também é uma satisfação aos meus fiéis leitores e também (talvez principalmente) aos meus amigos do site (gente muito boa, abnegados que trazem o futebol e os demais esportes com democracia. No Linha todos são importantes).

Não deixei de acreditar, não sou menos torcedor, nem menos colunista. Apenas me coloco a refletir sobre essas coisas. Sobre o futebol, suas paixões e sua perversidade. Seja Sacchi, seja Rodrigues, concordo com ambos: "O futebol é a coisa mais importante das menos importantes".

Existem coisas na vida que valem mais a pena. Se for para escolher entre futebol e minha humanidade, fico com o segundo, deixando a ignorância aos ignorantes. Como diria Douglas Adams, "adeus e obrigado pelos peixes".

Através desse texto, me despeço da coluna, certamente em breve um novo atleticano assumirá o preto e o branco com o mesmo amor, dedicação e carinho que tive à esse espaço. Afinal, quando uma camisa preta e branca estiver estendida no varal em uma noite de tempestade... vocês já sabe. Torcemos contra o vento.

Por: @Mhfernandes89

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