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Não é só futebol: Sobre ética e honestidade

Já faz algum tempo que o Derby foi dado como encerrado, mas as discussões se estendem por bastante tempo entre torcedores, jogadores e imprensa (como é comum em jogos deste porte). Desta vez, porém, o debate ganhou um foco que não é novo, mas costuma ficar em segundo plano: A honestidade.

Muitas foram às acusações sobre caráter do Keno – e estendida ao restante dos jogadores - em uma disputa que acabou com a injusta expulsão do volante Gabriel. Postura, ética e comportamento foram algumas das palavras mais citadas nas críticas em relação à tentativa de induzir o árbitro ao erro.

O que talvez poucos percebessem é que discutir honestidade em um contexto de futebol é um tanto quanto complicado. A atitude do Keno é algo bastante comum e que acontece em quase todo jogo: A tentativa de tirar proveito de uma situação em busca de um resultado. Simular pênalti ou reclamar de uma falta cometida mesmo sabendo que a fez são atitudes do mesmo nível.

A minha opinião particular é de que se de fato Keno agiu de maneira incorreta (e talvez seja muito ingênuo acreditar que não), ele errou feio. Posto isso, confesso ficar um tanto quanto assustado com a contundência que se falou sobre caráter e ética como se o acontecimento não fosse comum nesse meio.

Keno 'delatou' Gabriel para o árbitro Thiago Duarte Peixoto
Keno aponta para Gabriel e "ajuda" o árbitro a cometer erro grave. (Foto: Divulgação/Rubens Cavallari/Folhapress)
A INDIGNAÇÃO SELETIVA

Abaixo podemos ver lances em que outros dos grandes times de São Paulo também apresentam erros de arbitragem a seu favor e em nenhum momento mostram preocupação com ética ou boa conduta dentro de campo, aproveitando-se do erro do árbitro em função do resultado.

1. Poucos dias atrás, Kayke usou o braço para marcar o polêmico gol da vitória do Santos após falta também cavada por Lucas Lima. Nenhum jogador do time santista procurou o árbitro para comunicar que ele estava cometendo um erro.


2. Em clássico disputado entre Corinthians e São Paulo, Uendel colocou a mão na bola dentro da área e o juiz ignorou um pênalti – o lance viralizou na internet com brincadeiras sobre a sua “defesa”. O bom humor passou em todos os programas esportivos, mas ninguém questionou o jogador deixar de avisar ao árbitro que havia cometido o pênalti.


3. Na semifinal do Paulistão de 2008, Adriano fez um gol com a mão no Morumbi e não parece ter se preocupado em sinalizar para o árbitro da partida a irregularidade ao sair comemorando com a sua torcida. Também não houve questionamento sobre a índole do atacante.


O intuito com exemplos de clubes diferentes, ao contrário do que pode parecer, não é um manifesto de defesa ao Keno – atitude que, como já citei, discordo. A ideia é buscar uma reflexão um pouco maior sobre comportamento e aí sim buscar uma relação com valores, ética e comportamento.

Pela diferença de datas dos lances citados pode até parecer que são esporádicos, mas sem uma grande pesquisa é possível achar vários e vários casos semelhantes. Valdivia admitiu simular pênalti ano passado contra o Coritiba. Jô igualmente admitiu malandragem na estreia contra o São Bento. Barcos fez um gol com a mão no Beira-Rio e só foi anulado por interferência externa.

E percebam como a indignação é realmente seletiva. Os mais antigos certamente lembram-se dos passinhos milagrosos que Nilton Santos deu e fez o árbitro marcar falta ao invés de pênalti em jogo contra a Espanha. Quando pequeno, escutei muito sobre a malandragem de Pelé ao se agarrar com o zagueiro e simular um pênalti. A nosso favor, como Brasil, era válido e genial. Hoje, dependendo do ponto de vista, é desleal e absurdo.

Acho que a partir do momento que gostamos tanto do esporte precisamos ir além e, em função disso, pergunto: Qual a diferença de “caráter” e “honestidade” entre todos esses eventos e a acusação errada do Keno? Por que um jogador é “mal intencionado” e os outros são todos “bons malandros”?

De todos esses lances e outros tantos, o único caráter posto à prova é justamente do Keno. Nos demais não se criou nenhum debate sobre ética ou caráter como nas últimas horas. Não é um tanto quanto injusto questionar a honestidade de qualquer um desses jogadores quando nós mesmos não somos realmente honestos para analisar situações semelhantes?

FUTEBOL COMO REFLEXO DA SOCIEDADE

Esse comportamento generalizado na indignação seletiva (leia-se reclamar e questionar de acordo com os nossos interesses pessoais) tende a nos levar para um isolamento absolutamente equivocado do futebol como uma espécie de realidade à parte. Não é: Ele é reflexo total da sociedade e, principalmente, do nosso principal defeito como grupo – o “jeitinho brasileiro”.

E engana-se quem pensa que é coisa nova. No livro Memória de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida (escrito no século XIX), já se retratava essa característica. A necessidade de ter vantagem em relação aos outros a qualquer custo parece que se agravou e intensificou ao longo do tempo. Perdemos o discernimento de certo e errado.

Passamos as últimas horas querendo encerrar a carreira de um juiz por um erro (grave, é verdade, mas que na prática não se difere muito do que acontece rodada após rodada). Como se ele não tivesse direito a uma segunda chance após passar por todo processo de reciclagem e avaliação que são necessários para quem cometeu uma falha desse nível.

Não bastasse isso, hoje pipocaram montagens do árbitro com a camisa dos dois times em questão, talvez na tentativa de dizer que ele foi mal intencionado. Como se nós mesmos nunca tivéssemos errado. Nunca ligamos para alguém por engano, nunca nos esquecemos de emitir o pagamento da nota fiscal da nossa empresa, nunca respondemos de forma grosseira e nos arrependemos, nunca nos atrasamos.

Em todos esses casos, nós queremos o perdão quase que na mesma medida em que somos intolerantes com o erro do outro. A única diferença entre os nossos erros e o do juiz do jogo é a profissão dele, querendo ou não, tem uma exposição muito maior. E tudo isso torna ainda mais irônico: Como podemos questionar tanto honestidade de jogadores quando não somos honestos com a avaliação dos outros? Se fosse conosco, seríamos a favor desse radicalismo?

E a nossa realidade fica escancarada a cada dia. Topamos um “tapa na cara” (e sem responsabilidade) com a situação recente do Espírito Santo. As pessoas não se respeitam: Só há ordem com fiscalização. Foi só a polícia sair das ruas que várias pessoas se aproveitaram do momento para tirar proveito individual, roubar ou matar. Aproveitar-se da situação não é o mesmo que fazem os jogadores dentro de campo?

Nós formamos fila dupla para tentar cortar trânsito. Nós tentamos furar fila mesmo sabendo que outras pessoas estão na nossa frente. Nós recebemos troco a mais e não avisamos o caixa. Nós não paramos para ajudar pessoas de idade. Nós mentimos para não admitir os erros. Nós colamos na prova.

Será que nós realmente temos direito de falar ou julgar sobre honestidade e caráter?

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