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O Camisa 10 (que veste a 11) do meu Galão

Fonte: Superesportes
No longínquo ano de 1973, pós uma fracassada excursão da Seleção Brasileira à Europa às vésperas do mundial da Alemanha em 1974, o Brasil vivia um dilema. Pós-aposentadoria de Pelé da amarelinha, quem seria o camisa 10? Com muito bom humor Hélio Matheus e Luiz Wagner criaram uma das letras mais icônicas da música popular brasileira eternizada na voz de Luiz Américo, chamada Camisa 10. Com muito bom humor os compositores ironizaram a falta dessa figura emblemática, e a consequente péssima fase do escrete Canarinho no período Pré-Copa.

Desculpe seu Zagalo, mexe nesse time que está muito fraco, levaram uma flecha esqueceram o arco.
Botaram muito fogo, e sopraram um furacão, que não saiu do chão.
Desculpe seu Zagalo, puseram uma palhinha na sua fogueira.
E se não fosse a força desse tal pereira comia um frango assado na jaula do leão.
Mas não tem nada não.
Cuidado seu Zagalo, o garoto do parque está muito nervoso, e esse meio campo fica perigoso, parece que desliza nesse vai não vai, até quando não cai.
É camisa 10 na seleção, laia, laia, laia...
Dez é a camisa dele.
Quem é que vai no lugar dele?
Dez é a camisa dele
Quem é que vai no lugar dele?

Fonte: Nominuto.com
O meu amigo leitor deve estar perguntando, por que diabos o maluco desse blogueiro vem falar de uma música sobre a seleção brasileira gravada em 1973, em uma crônica sobre o Galo. Calma caro Atleticano, invoquei essa pérola para fazer um paralelo com a situação do próprio Atlético.

O Galo em seus 108 anos de história foi marcado por ter um time extremamente vertical, agressivo, insinuante, porém a bola nunca parava no meio campo. Essa figura do meia clássico, cerebral nunca foi presente em nossa história. Em 1971 a armação era dividida entre Humberto Ramos e Lola, o primeiro era um volante, o segundo apesar de usar a 10, segundo os mais antigos era mais um ponta de lança, não era aquele cara que cadenciava o jogo, muito menos ostentava lances geniais (apesar de ser excelente jogador).

No grande time da década de 80, o grande assistente do Rei era Marcelo Oliveira (atual técnico do Galo), até então Marcelo Pacote. Da mesma forma, Marcelo era um segundo atacante, um ponta de lança com muita visão de jogo, mas era um cara vertical, não tinha a genialidade de um Zico, por exemplo, para ritmar o time do Atlético.

Reinaldo, Paulo Isidoro e Marcelo Oliveira. Fonte: BlogdoChicoMaia
Na década de 90 e no início dos anos 00 essa posição foi ocupada por Jorginho, Robert e Ramon Menezes, todos bons jogadores, regulares, mas nenhum craque. Na nossa idade das trevas, fins dos anos 00 essa camisa foi usada por pratas da casa que nunca se firmaram (Tcho, Ramonzinho e Renan Oliveira), por veteranos descendo a serra como Petkovic, e por jogadores muito esforçados, mas muito abaixo do peso que a camisa exige (Marcinho é um exemplo).

Ou seja, a camisa 10, essa figura do gênio do meio campo jamais esteve presente na história alvinegra. Jamais esteve até 2012. Quando Belo Horizonte presenciou a passagem de um gênio duas vezes melhor do mundo, “o segundo sol alvinegro que realinhou a órbita dos planetas, derrubando com um assombro exemplar... O que os astrônomos diriam se tratar de um outro cometa” (Segundo Sol Canção de Nando Reis, imortalizada pela Atleticana Cássia Eller). Refiro-me ao inigualável Ronaldinho Gaúcho, cadeira cativa no panteão dos imortais alvinegros. Parecia que a peça que faltava para o Atlético romper o estigma da fila era esse gênio, esse camisa 10, o maestro da orquestra, o cara que com um passe decidisse um jogo impossível, ou com um drible desmontasse a defesa.

Fonte: Esporte.opovo
Contudo meus amigos a passagem do mito se deu em um piscar de olhos, uma fração de segundos, foram dois anos de puro êxtase, porém foram apenas dois anos. Efêmero é uma boa palavra para descrever tal sentimento. Pós-saída do gênio, a camisa 10 alvinegra ficou órfã, refém de um mito insubstituível, assim como a Amarelinha pós Pelé.

Por ela (me refiro a posição de meia central, não necessariamente ao número da camisa. Ronaldinho mesmo usou a 49 durante todo ano de 2012) passaram Guilherme (genial, mas cheio de altos e baixos, além de frequentar mais o departamento médico do que a cancha), Dátolo (esforçado, não se esconde, mas longe de ser genial), Giovanni Augusto (esforçado, algum potencial, mas baixíssimo poder de decisão, desaparecia nos momentos mais decisivos) e Cárdenas (sem comentários).

Talvez desses Guilherme tenha rascunhado um pouco da arte de Ronaldinho na campanha da Copa do Brasil de 2014, mas é apenas um rascunho, longe da arte final do gênio.

Entra o ano de 2016, ano de Libertadores. O Atlético com a saída de Giovanni Augusto e Guilherme necessitava repor essa peça, mais do que isso necessitava de alguém que fizesse o que os dois jogadores nunca foram. Um protagonista. Para esse posto o Atlético observou um jovem equatoriano, destaque do campeonato argentino no pequeno Banfield, Juan Cazares.

Se você, assim como eu acompanhava o futebol portenho e tinha contato com um jogo chamado Football Manager (jogo de computador no qual você é o técnico e que por reboque possui um dos bancos de dados futebolísticos - scouts - mais precisos do mundo) sabia que Cazares era uma aposta com quase 100% de precisão. O baixinho reunia características importantes: visão de jogo para uma enfiada de bola comparável à Ganso e Lucas Lima; habilidade no 1x1, traço de Ronaldinho; dinâmica de jogo – é o 10 que pensa em movimento, no Brasil quem fez muito bem esse papel foi Dario Conca.

Porém por outro lado, da própria Argentina vinham indícios que Cazares era um jogador problemático, segundo Matias Almeyda ex-zagueiro do River e técnico do equatoriano no Banfield, é do tipo de atleta que precisa ser acompanhado de perto, ser abraçado pelo técnico e pelo grupo para não se perder nos desvios da vida, digamos assim.

Fonte: terradeportes.com
O primeiro semestre de Cazares foi marcado por tudo isso. Atuações brilhantes na Libertadores, partidas apagadas, afastamento do time por Diego Aguirre até hoje inexplicável (especula-se que Aguirre o enquadrou por falta de disciplina, apenas boatos) e aquela pulga atrás da orelha, será que se Cazares estivesse no Morumbi nossa sorte seria deferente? É uma incógnita.

Sendo bem sincero com os amigos torcedores, eu quero um jogador, não um candidato a marido da minha filha (até porque não tenho filha!), logo acho que o Uruguaio errou ao afastar o gênio de um jogo tão importante, mesmo se Cazares não estivesse 100% fisicamente como se especulou também.

Fonte: Atlético/Bruno Cantini

O tempo passou, a Copa América chegou, Cazares saiu do time e junto dessa saída, a tormenta. Empates, derrotas, atuações pífias. O time sem seu maestro se tornou preza fácil aos adversários, com um padrão de atuação digno de Z4, fato terrível que acabou se materializando. Certamente nesses primeiros jogos deu pra se ter noção da importância de Cazares ao time, pois a diferença de atuação é brutal. Cazares disputou seis jogos, foram cinco vitórias e um empate. Por outro lado esteve ausente em outros seis, três empates e três derrotas. Marcou seis gols e já deu três assistências, ou seja, nove dos 21 gols marcados pelo Atlético contaram com participação direta do meia (mais de 1/3). Em relação a alguns índices Cazares é líder em finalizações, líder em assistência para gols e para finalizações, segundo em cruzamentos e líder em dribles. Ou seja, o jogador é dominante em todos os fundamentos ofensivos, e certamente é o melhor jogador atuando no campeonato brasileiro.

Fonte: Superesportes
Nos seis jogos em que participou, apenas contra o América não houve participação direta do meia nos triunfos. Mas nos outros houve: gol da vitória contra o Santos, gol do empate contra o Atlético PR, gol e assistência contra a Ponte, gol contra o Corinthians; e barba, cabelo e bigode contra o Fogão - dois gols e duas assistências.

O primeiro gol do equatoriano fica claro o brilhantismo na finalização de quem tem a frieza de um artilheiro para colocar a bola para dentro; a primeira assistência foi daquelas de quem tem um olho nas costas e a visão necessária para tomar a decisão dos gênios, o fácil era cruzar e torcer para Fred ou Clayton estarem posicionados, Cazeres devolveu para Robinho, fez o mais difícil. O terceiro gol do Atlético, segunda assistência de Cazares, foi marcada por uma arrancada do meio campo, já no início do segundo tempo, ou seja, velocidade com a bola nos pés para alcançar a linha de fundo e encontrar o artilheiro Fred; e o quarto gol foi daquelas pinturas enquadradas, gol de videogame. Goleiro adiantado, bola colocada com a mão no ângulo.

Fonte: Superesportes
Segundo as palavras do próprio Fred, talvez o maior beneficiário da presença do equatoriano no time:

Gênio. Jogador muito diferenciado. Ele é fora da curva. Está fazendo a diferença pra gente. Estou tendo do privilégio de jogar no ataque com a cabeça pensante e os pés rápidos ao nosso lado”.

Enfim, como deu para perceber a resenha de hoje não é sobre o Galo e sim sobre o camisa da 10 (que veste a 11) do meu galão, e se seguir nessa toada, por mais um dois anos (se a Europa ou a China deixarem) de colocar uma cadeira cativa ao lado de Ronaldinho Gaúcho como dos grandes camisas 10 da história do Atlético.

#Saudações Alvinegras
#AquiéGalo

Por: @Mhfernandes89

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