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A noite de um visitante atrás de seu time banana



Nunca tinha ido a um jogo de visitante. Se você nunca foi ou só está curioso pra ouvir a impressão de mais um flamenguista sobre mais um de nossos vexames visto de perto, é só ir descendo as letrinhas.

Após ter ido em todos os jogos do Flamengo esse ano no Maracanã com exceção de apenas um, o jogo em Itaquera seria meu vigésimo primeiro esse ano (bato assim meu próprio recorde de jogos em um ano só).

Foi um tremendo acaso. Já estaria em SP pra um evento da faculdade e o jogo calhou de ser na data em que chegaria a São Paulo. Não podia perder.

Foi meio loucura. Fiz uma lista de prós e contras pra decidir se iria.

A favor: 
1) Já estarei em SP
2) Se ganhar vai ser épico.

Contra: 
1) Vou sozinho
2) Ingresso caro
3) Não sei como vai ser acesso
4) Se perder, vai ser horrível

No fim, decidi ir. Argumento final: tenho juventude, energia e idade pra dar uma de maluco. É agora ou nunca.

Vim. Peguei meu ingresso na Gávea no domingo e vim ansioso.

Saí do meu hostel com uma camisa preta com alguns dizeres rubro-negros, porém coberta de um casaco preto velho trazido na mala apenas para me camuflar. Cruzei três linhas de metrô e exatamente 20 estações para chegar a Itaquera. Um metrô muito melhor que o do Rio, que demorou 40 min em todo o trajeto e me deixou na porta da Arena. Alguns corinthianos me acompanharam mas nada assustador.

Recomendação: Se um dia você vier a Arena à paisana como visitante não fique procurando por indicações de onde entrar. Elas não existem. 

Rodei meia arena. E a volta é longa, porque a Arena é rodeada de alguns morrinhos que precisavam ser contornados. Em volta de mim era um misto de "Vai, Corinthians" com "É jogar por uma bola". Os caras realmente já sabem como a coisa funciona pra eles.

Quando me achei, foi uma entrada muito tranquila e me juntei logo aos outros malucos que saíram do Rio.

O estádio impressiona. Ou melhor, a Arena. Não se parece nada com um estádio. Pela arquitetura e pela atmosfera, a Arena me lembrou uma quadra de NBA com um campo de futebol no meio. LED pra todos os lados e músicas pops tocando alto. Lotada de camarotes nos setores mais altos. Gramado impecável.

Enquanto esperávamos, fomos provocando os corinthianos próximos. Bradávamos as músicas de sempre, só que agora mais concentradas e com mais vontade. Além delas, vinham as provocações normais. A novidade mais legal foi "A-E-I-O-U é a banheira do Gugu. Mas cantar o clássico"A praia dos paulistas é o Rio Tietê" tem um sabor a mais.

Não sei. Acho que por ser minoria, da mais gosto de sobrepor ao adversário. Ser achincalhado por um estádio todo e responder a altura te dá uma sensação de coragem e força que antes eu não tinha experimentado. Deve ser assim que os botafoguenses se sentem.

Bom, os times sobem e explode as duas torcidas. Mas só a do Flamengo continua. Acredite se quiser, mas os paulistas param para ouvir o hino nacional. Silêncio entre os corinthianos enquanto nós mal ouvíamos o hino sendo executado como de praxe. Foi uma das cenas mais estranhas que eu já vi no futebol.

Começa o jogo e realmente vai Corinthians. Barbieri compôs um time mais carregado e com menos velocidade. Os paulistas tentavam ficar com a bola meio no abafa e o Flamengo a tocava. Errava apenas quando se utilizava de alguns passes displicentes. 

Em um deles, a bola parou em Jadson, o único jogador lúcido do Corinthians. Fez partida admirável. Viu Danilo Avelar se projetar atrás de um Everton Ribeiro que não acompanhou. Fatal para Diego Alves. Corinthians 1x0. Explode a Arena.

Puxamos logo o hino e continuamos na toada de sempre. Não desanimamos. E não era pra isso. Quando botamos a bola no chão éramos melhores. Impressionava a ruindade dos jogadores do Corinthians. Muito fracos de modo geral. No primeiro passe em profundidade do jogo, Arão achou Pará que cruzou para a área. Ela bateu em Henrique e entrou. A minoria grita na arena ao som de "Gavião imundo, minha torcida é a maior do mundo".

E aqui pra mim, caiu um mito. No Rio, não sei em outros lugares, existe um mito de que a torcida do Corinthians é incansável, que não para de cantar um minuto sequer. Se isso for verdade, só vale pra Gaviões da Fiel. Com 1x1, enquanto tocávamos a bola no campo de ataque, quase não se via gritos da torcida corinthiana. O setor mais próximo ao nosso praticamente não se manifestava e víamos de longe a Gaviões da Fiel. Além dela, as outras organizadas que claramente não cantavam as mesmas músicas. Muito parecido com o Maracanã.

Nesse meio tempo em que éramos melhores na arquibancada, éramos melhores também no campo. Rever quase fez quando estava impedido. Dourado podia ter feito 3x1 se soubesse se posicionar bem e não ficar impedido. Não matamos como poderíamos. Custou caro.

Esse Flamengo é como um pugilista sem potência. Bate, bate, bate mas não dá o nocaute. Deixa o adversário vivo o tempo todo. Quando você menos espera, ele te derruba de vez. História repetida inúmeras vezes.

Voltamos ao segundo tempo que virou um jogo mais equilibrado. O Corinthians não oferecia perigo mas chegava mais perto de nossa área. Do outro lado ameaçamos com Vitinho e Paquetá. Chutes muito fracos e sem firmeza. 

Pedrinho não cometeu o mesmo erro. Em sua primeira jogada na partida, deu chute simples mais certeiro.

É bom lembrar que o gol surge após mais uma falha patética de Léo Duarte que basicamente entrega o contra-ataque ao Corinthians. É a quinta falha dele nos últimos sete gols tomados pelo rubro-negro. É mais um jogador que a torcida superestimou em um momento bom simplesmente por ser da base, mas é um zagueiro fraco. Sem firmeza, Leo Duarte não consegue fazer uma antecipação, no chão ou em bola alta, conseguindo perder disputas de cabeça pra Jadson e Romero. "É muito educadinho", disse um sábio da arquibancada.

Bom, explode a Arena. E conhecendo nosso time, ali morremos. E se o Itaquerão não tinha fervido ainda, agora fervia. Tornou-se o caldeirão que parece ser da TV e fez o Flamengo ativar o modo banana (algo que já não é muito difícil).

Pra completar, Barbieri bagunçou o time todo e tirou qualquer chance de empate. O Flamengo começou a circular pelo ataque e jogar bolas na área sem ter centroavantes nela. Vitinho errava tudo que tentava, Paquetá perdia a maior parte das bolas e nossa melhor opção viravam os cruzamentos de Trauco para algum infiltrado que viesse de trás.

Mesmo assim quase fizemos em alguns momentos. Mas surgiu aí um fator. É verdade: Os corinthianos comemoram mais bola cortada pela defesa do que gol. Já se acostumaram, já faz parte deles.

Mesmo assim, numa delas, por capricho e sacanagem do destino, aos 48 Trauco cobrou bola parada que achou Pará. Sem querer, chutou na direção do gol e enquanto ela cruzava a área em direção ao gol de Cássio pareceram se passar umas duas vidas. Mas o destino não quis. Bola na trave só pra nos dar alguma esperança, e fim de jogo.

Aos gritos de "cheirinho!" a torcida da Flamengo simplesmente parou de gritar e esperou ser liberada pra ir embora.

Existe uma lenda de que a polícia de São Paulo costuma ser bastante sacana com os cariocas. E ontem de fato foi. Esperamos mais de 1h20 dentro do estádio, tempo exato em que o metrô ficou aberto no pós jogo. Fui obrigado a esperar por mais 1h20 para o valor de um Uber em direção ao meu hostel no centro da cidade abaixar o valor. Cheguei nele as 2h da madrugada.

Ou seja, não conte com metrô sendo visitante num jogo na Arena Corinthians as 21h45. Fica a dica.

E fica a frustração, de uma torcida que teve paciência, tranquilidade e fé durante anos. Agora faz tudo pelo time, dá tudo o que pode e vê seu elenco ativar o modo banana em toda oportunidade que tem. E realmente, faz sentir saudades da época em que lutávamos todo ano para não cair. Era menos vergonhoso.

E está constatado mais uma vez: Ser flamenguista é não ter amor próprio.

Mas fica a notícia boa, são apenas mais 92 para a gestão Bandeira de Mello acabar. Se formos campeões brasileiros será um milagre, apesar de ser agora uma obrigação.

Jornada longa, cansativa e que terminou de cabeça cheia. Mas posso recomendar como fã de futebol: vá pelo menos uma vez na vida a um jogo grande do seu time como visitante. Experiência única.

Agora, no caso dos flamenguistas, recomendo esperar até o ano que vem. O modo banana está impregnado demais pra ir embora esse ano.

No mais, 
Saudações Rubro-negras

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