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Rei, Rei, Rei

O atacante recebe um passe preciso, cara a cara com goleiro, ele pode bater de primeira, driblar o goleiro, mas esse atacante aqui não, ele tem a frieza de ver a posição do arqueiro, e dá um leve toque por baixo da bola, que sobe, passa por cima do camisa 1 e vai dormir mansamente no fundo das redes, golaço por cobertura.

Fonte: Acervo Globo
Todo mundo já assistiu a incrível jogada da copa de 70, em que Pelé, sem tocar na bola, deu um drible de corpo em Mazurkiewicz para depois encontrar a bola e já meio desequilibrado tocar para o gol, que não aconteceu porque a bola passou caprichosamente rente a trave esquerda, num caso raro em que o não acontecer torna um fato deliciosamente melhor do que o fato consumado. Pois existe outro atacante que chegou a jogar contra o Pelé e que fazia a mesma coisa, sem tocar na bola ele driblava e deixava o zagueiro para trás, driblava o goleiro e mandava a bola para o gol.

Aos mais jovens da geração Play Station, lembram-se do Ronaldinho Gaúcho distribuindo chapéus no adversário espanhol, pois o nosso atacante também fazia muito isso, os azuis que o digam. Jogando pela seleção em um jogo contra a Polônia, Reinaldo deu um lençol no zagueiro e tocou à direita do goleiro, um dos mais belos gols de sua carreira.

Fonte: Acervo Globo
Antes de me atrever a escrever sobre o ídolo que não vi jogar, pelo menos não ao vivo, pois não me canso de assistir aos vários vídeos, ouvir e ler várias histórias de suas magias dentro do campo e seu ativismo fora dele, recorro ao que dizem aqueles que estavam lá. Extraído da contra capa do livro “Punho Cerrado – A História do Rei.” Escrito pelo filho do ídolo, Philipe Lima, trago a esse espaço citações sobre o Rei, feitas por quem o viu brilhar:

Olha, até nisso eu dei sorte. Se o Reinaldo fosse fisicamente perfeito, poderia bem ser capaz de me reeleger ao segundo plano” (Pelé).

Reinaldo foi um jogador maravilhoso. Eu sempre digo que seria o jogador que mais se aproximaria de Pelé se não fossem tantos problemas de joelhos e cirurgias” (Zico).

Eu ia ao campo só pra ver o Reinaldo jogar. Nunca tive um ídolo em minha vida, mas me espelhei no Reinaldo” (Tostão).

Era impressionante a capacidade do Reinaldo de se recuperar. Muitas vezes ele não parecia ter condições de descer uma escada, mas ele ia para campo, treinava e jogava” (Procópio Cardoso).

Quando 80 mil pessoas gritavam ‘Rei, rei, rei. Reinaldo é nosso Rei, até o adversário se curvava, era um espetáculo” (Paulo Isidoro).

O Reinaldo era absolutamente um gênio, um jogador capaz de se desvencilhar da marcação em um espaço muito pequeno. Todo dia fazia coisas muito diferentes e jogadas geniais” (Marcelo Oliveira).

Se Deus um dia quis brincar de centroavante, Ele encarnou no Reinaldo” (Geraldo Márcio).

Respaldada pelas testemunhas acima, sigo contando um pouco do que sei sobre um ídolo que aprendi a ter, ainda criança, quando fui ao Mineirão pela primeira vez, e após um jogo dos meninos da base, que abriu o jogo do time principal contra o rival Cruzeiro, aconteceu uma homenagem ao maior jogador alvinegro de todos os tempos. Reinaldo deu a volta olímpica, aos gritos eufóricos da torcida, que em um coro único proclamara seu rei: “Rei, rei, rei, Reinaldo é nosso rei. Saí do campo feliz com a vitória e determinada a conhecer mais sobre vossa majestade.

Mineiro de Ponte Nova, Reinaldo, ainda Zé, se destacava entre a molecada.  A fama do gênio começou ainda nos tempos das peladas. Nos campeonatos amadores, Zé jogou com os adultos pelo Pontenovense, chamado na época pelo apelido Caburé se destacou entre os mais velhos e experientes, nascia ali o sonho possível de ser profissional, nascia ali uma lenda.  E então soube, de onde veio o menino que se tornou rei de uma geração inteira de torcedores, de aficionados por futebol.

Se pararmos para assistir as atuações que temos acesso, não teremos nem o que falar. Indiscutíveis, explicam a realeza, quase divindade. É coisa para qualquer amante de futebol ver rever por toda a vida. É o que tenho feito, diga se de passagem. Mas o Zé, Caburé, Reinaldo Lima, Rei tem uma história que vai além das extraordinárias jogadas que fazia dentro de campo. Enquanto encantava o Brasil e o mundo, Reinaldo estudava e se conscientizava do período político da época, e usava seu talento para desafiar a ditadura em uma tentativa de conscientizar as pessoas das atrocidades que um regime de exceção, um regime que jogava para o alto os princípios básicos da democracia e da noção de sociedade. Reinaldo sem querer foi um revolucionário.  

Fonte: Imortais do Futebol Wordpress
Seu punho cerrado foi motivo de aproximação com grandes artistas e intelectuais, engajados como ele. E assim como grandes pensadores de nosso país, foi vítima de muita perseguição e calúnia extracampo (Reinaldo teve sua inteligência, capacidade intelectual e até sua sexualidade colocada à prova). Contudo, o gênio do futebol e amigo de Chico Buarque, Elis Regina, Frei Betto, continuava indestrutível e encantador onde jogava. Somada à perseguição fora de campo o craque junto do glorioso esquadrão do Clube Atlético Mineiro enfrentou, juízes ladrões, dirigentes, a mídia (leiam os relatos da biografia do Walter Clark, os crimes rubro-negros foram confessados na maior cara de pau) e os absurdos que assolavam o futebol durante sua jornada; Reinaldo enfrentou graves lesões sofridas desde muito jovem e atenuadas por jogadas desleais (que o digam Abel e Moraes), muitas vezes acobertadas pelos árbitros e a principio por tratamentos equivocados, foram essas lesões  que mais dificultaram a vida do craque, que com grande ajuda do doutor Neylor Lasmar continuou fazendo o impossível dentro campo.

Fonte: Acervo Estado de Minas
Como não estamos falando de um jogador comum, apesar das dores, lesões e às vezes falta de sequencia de jogos, Reinaldo sempre entrou em campo para desequilibrar, impressionar e mudar cenários, mesmo quando parecia não ser possível.  Em 79, após voltar de um tratamento nos EUA, aguardado com euforia e desconfiança, o rei temia não conseguir jogar como antes e enfrentar as agressões violentas que sempre sofreu de seus marcadores. Antes de voltar, ele ainda passou por seu maior sofrimento, naquele ano, a morte do pai. Reinaldo nunca escondeu que jogava para o pai. Ele era a principal motivação do craque.

A volta do rei aos campos, após um longo período de recuperação, a momento de luto, haveria de resultar em uma participação simbólica no jogo. Mas estamos falando de um rei, a majestade do nosso futebol, aquele que em sua volta marcou um gol improvável contra o rival. Aos poucos Reinaldo reencontrou seu futebol, e ainda em 1980, junto da geração de ouro do nosso Galo enfrentaria o jogo que nunca acabou, brilharia contra o Flamengo na final do campeonato brasileiro. A história desse jogo se resume em injustiça, mas ratifica a indiscutível soberania do rei, nem sempre os vencedores de uma batalha são os verdadeiros heróis, a história melhor do que ninguém conta: Tiradentes enforcado virou símbolo de liberdade, Joana D’arc acabou na fogueira e se tornou símbolo de abnegação, e Reinaldo... Bem Reinaldo mesmo machucado, com os dois joelhos infiltrados carregou o Atlético nas costas fazendo dois gols em um Maracanã lotado contra um Flamengo igualmente fantástico que não precisaria de tanto esforço extracampo para se tornar campeão.

Fonte: Acervo Globo
Em 82, Reinaldo ainda tinha talento e condições de brilhar. A convocação para a disputa da Copa do Mundo era eminente. Os jogadores pediam publicamente a presença do craque na seleção. Se o então técnico Telê Santana tivesse se rendido, acredito que o destino da seleção brasileira teria sido outro, faltou o brilhantismo de um Rei no Sarriá, mas enfim em 78 Reinaldo foi cortado em plena Copa pela Ditadura, nunca saberemos se em 82 Ernesto Geisel havia mexido mais peças de seu tabuleiro. Azar do futebol, pois a arte brasileira morreu naquela derrota para a Itália, depois dali o futebol ficou chato e com Reinaldo tudo poderia ser diferente. O Atleticano pode se orgulhar, pois entre 74 e 82, o Mineirão viu em sua relva o maior jogador de futebol do mundo naqueles tempos. A Bola de Ouro seria tranquilamente do Rei.

Reinaldo é vencedor pela própria natureza. Longa vida ao Rei!

Dica aos Leitores: Documentário sobre o Rei produzido pela BBC Parte 1 e Parte 2



Saudações Alvinegras! E até a próxima jornada.

Por Aline Lima, Carlos Eduardo Oliveira e @Mhfernandes89  - Equipe Vingadores LF

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