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Sobre uma camisa, meu pai, Angelim, Juan, o Maracanã e a magia


(Lance)

Tem certas coisas que quem não tá no universo do futebol nunca vai entender.

Há uns 10 anos, em um Natal comum de uma família da zona norte do Rio, eu ganhei uma camisa do Flamengo. Com a família cheia de flamenguistas, uma tia nossa resolveu dar camisas do Flamengo para sobrinhalhada toda, cada uma com um número. O detalhe é que todos os primeiros já estavam na casa dos 16 a 20 anos. Só eu era pequeno. A camisa, com um escudo nitidamente falso, mas que só um olhar atento poderia perceber. Saiu a 10, a 11, a 8 e a 7. Pra mim veio a 4.

Admito que fiquei meio bolado de ser a quatro. E era muito maior do que o meu tamanho. Talvez jamais usasse ela. Mas tudo bem, vamos lá. Afinal, era um manto.

A camisa ficou guardada no armário.

Um ou dois anos depois, chegou o dia 06/12/2009. O dia do hexa. É um dos dias marcantes da minha vida e de todo flamenguista.

Esse dia foi meu e do meu pai.

Desde pequeno, minha paixão pelo Flamengo está diretamente ligada a ele e aos jogos grandes. Meu primeiro jogo foi um Vasco 2x1 Flamengo, com acreditem-se-quiserem dois gols do Ramon DE CABEÇA. 

Depois disso, o dia que mais lembro dos meus primeiros anos foi o abraço do meu pai no gol do Pet. Pra sempre. Até então, em 2000 eu era São Caetano. Em 2001, minha mãe chegou em casa e me viu chorando porque o vizinho tinha tirado a bandeira do Flamengo da janela.

Essa é uma história de pai e filho, futebol e estádio assim como qualquer outra. É tradição e paixão que um dia meu filho vai ter.

Mas o dia do hexa foi especial. Eram tempos de pais separados em que eu o via cada vez menos. Eu fiquei brigão, chateado, irritadiço e o Flamengo era um dos nossos elos mais fortes.

8 rodadas antes eu, sonhador aos 13 anos, insistia com ele que dava pra ser campeão. Ele, experiente aos 43, freava minhas expectativas.

Até que o dia fatal chegou e só precisávamos de uma vitória. Pra realizar meu sonho, ele foi sei lá aonde, gastou sei lá que dinheiro, e arrumou nosso ingresso. Seríamos de novo eu, o gordo, o Maracanã e o Flamengo, tudo uma coisa só.

O engraçado é que nesses anos meu pai nunca teve uma camisa do Flamengo. Íamos sempre comigo completamente trajado e ele parecendo um turista, ou torcedor de outro time que quer se esconder na arquibancada rival. Com uma camisa qualquer.

Mas naquele dia, não seria uma camisa qualquer. Fiz questão de que ele usasse o manto. E lá no fundo do meu armário eu achei a camisa do natal passado. Extra grande, com a 4, daria no gordo. Ele sempre foi zagueiro nas peladas de veterano no prédio. Era adequada.

No intervalo da peleja, eu rezava por um tento do Pet de novo. A nostalgia pedia pelo replay de 2001.

Eis que sai uma bola na área e  Angelim bota lá dentro. Tá lá. O gol mais arrepiante de todos.

Quando olhei pro lado, eu vi o cara que tinha me proporcionado tudo aquilo. Quando ele comemorou, enquanto o Maracanã tremia, eu vi o número.

Quatro.

Quatro do Angelim. Do torcedor em campo. Quatro do meu pai.

Pra mim, obviamente, era tudo na conta da camisa.

Logo depois, o Maracanã fechou. Foram anos de saudade. Nesse tempo todo, com ele só fui no Engenhão ver Flamengo 3 x 3 Olímpia. Que tragédia.

Passado esse tempo todo, eu mais velho, virei frequentador assíduo do Maracanã. Agora com os amigos. Hoje parei pra perceber, que nunca mais fui com ele.

Esse ano, estivemos os dois lá dentro mas não juntos. Ele na sul e eu na norte. Vivi a nostalgia frustrada de ver o meu 10, Diego, fazer um gol de falta do 10 do meu pai, o Zico, em uma estréia de Libertadores. Quando a bola entrou eu só pensava no gordo. Mas ele estava do outro lado do estádio.

Durante o ano, foram algumas vezes que ele disse que iria a jogos, comprei ingresso e ele desmarcou em cima da hora por trabalho e saúde. Faz parte. Mas entre os meus amigos, já estava virando uma lenda.

Pro jogo de ontem, ele exigiu ir. Me pediu pra comprar, me deu dinheiro antes e eu comprei. Ontem botei a 4 de novo pra ele na mochila, intocada desde 2009, e saí pro trabalho. A minha era a 35.

Quando estou no elevador saindo de casa vem a mensagem: 

"Filhote, não vai dar pra ir. Vou ter que cobrir um amigo no trabalho. Vende o ingresso".

Fazer o que, né? Passei pra um amigo e vamo simbora.

Pior que ontem poderia ter sido uma dos piores dias da minha vida. Tragédias foram evitadas.

O roteiro dramático-trágico cinematográfico vocês já conhecem. Era o time que eu mais acompanhei, fracassando totalmente.

1x0 pros caras. Era desesperador. Sufocante. Foi a primeira vez no ano que parei de cantar no Maracanã.

Depois de defesaça do goleiro dos caras, o amigo com o ingresso do meu pai virou pra mim e disse o que provavelmente diria: "Hoje, não vai dar".

A lembrança do meu pai veio na hora. E a camisa! Eu não deixei em casa. Tava na mochila.

Ela tinha ficado na mochila. No último suspiro de esperança, na última barra que a gente se agarra, desci da cadeira calmamente. Abri a mochila, tirei a camisa e vesti por cima da minha.

A pergunta ao redor foi: 
"- De onde você tirou isso?
- A última vez que essa quatro esteve aqui, a gente tava perdendo de 1x0 e acabou 2x1. Num gol do Angelim. O 4. Hoje vai ter gol do Juan."

Eu sei que nessa hora qualquer um que ler vai pensar que eu tô inventando ou tô misturando acontecimentos.

Não estou. Tenho evidências. Tenho testemunhas.

E mesmo se não acreditar. Essa história é perfeitamente possível.

Fato é que sai o gol do Juan. Explosão. O ídolo. O torcedor em campo. O quatro.

O quatro do Juan. O quatro do Angelim. O quatro do meu pai.

Um milhão de sensações diferentes vieram na cabeça. Coisas que só um fã de futebol vai entender.

Depois, o gol do Vizeu foi pra sacramentar uma noite feliz. 

Mas ali, naquele pequeno espaço amarrado, vestindo aquela camisa eu vivi um dos momentos mais intensos da minha vida.

Contei com a sorte, claro. Menos 5min e eu teria deixado a camisa do meu pai em casa.

Ali naquele momento, tive 13 anos de novo. Era tudo culpa da camisa.

Ali, naquele momento, eu lembrei de tudo que pra mim envolve essa paixão.

A camisa, o meu pai, o Angelim, o Juan, o Maracanã e a magia do futebol.

E que os deuses do futebol abençoem a maior invenção da humanidade.

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