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Um Flamengo mitológico



Todos os anos, professores de história por todo esse Brasil que hoje amanhece rubro-negro ensinam aos seus alunos de 11/12 anos o que é mito. "É uma narrativa criada pelos povos que os ajudam a compreender o universo à sua volta. Muitas das vezes, pra explicar aquilo que não conseguem compreender". 

Mais específica ainda é a ideia de mito de origem, que se refere uma história de fundação ou criação daquele povo, daquela identidade. Seus valores, suas glórias e seu passado estão ali para serem passados de geração em geração. Na antiguidade, o comum é que esse trabalho fosse feito pelos anciãos das aldeias e comunidades dos primórdios da humanidade.

Pois bem. Se existe um espaço o de alguma tribalidade e identidade clânica aparecem nesse mundo doido e tecnológico do século XX, esse lugar é futebol. 

E assim foram criados milhões de rubro-negros. Aqueles com 40 anos ou menos sentaram com seus pais um dia e o ouviram falar de uma época em que se ia ao Maracanã não para saber se ia ganhar, mas de quanto. Ouviram falar de um tempo de heróis rubro-negros. Leandro, Júnior, Adílio. Escutaram as histórias de um artilheiro das decisões. Aprenderam a reverenciar um deus, Zico, sem nunca tê-lo visto jogar. Seu mito de origem.

Milhões de uma nação que na sua formação criaram na cabeça um Flamengo grande, enorme, maior do mundo, e que sempre fez questão de bradar seus títulos da sua época de epópeias. Milhões de uma nação que cresceram esperando a sua vez de ver algo assim. Fantástico, sensacional, inebriante. Milhões de uma nação que cresceram e viveram com um sonho. Alguns deles já sonham a tanto tempo que já até fazem para seus filhos a função de ancião da aldeia que um dia seus pais fizeram.

Trinta e oito anos. 

De novo: trinta e oito anos.

Foi o que demorou. E durante esse tempo foram humilhações e humilhações, decepções e decepções, uma mais maluco e inacreditável do que a anterior.

Mas a hora, amigos, a hora chegou. O tempo longo só fez tornar mais especial o retorno.

2019 veio e veio com tudo. Veio com a tragédia do início do ano. Veio com a vibração turbulenta de gols nos últimos minutos nos jogos dos estaduais. Veio na figura de seus heróis. Veio nas arrancadas de mais um artilheiro das decisões, veio com mais um goleador com a cara da torcida. Veio com mais um Jesus. Um salvador, um deus que renova a esperança e transforma qualquer jogo do time da Gávea num sonho. Tão alto quanto o vôo de um urubu. Tão grande quanto os sonhos de um menino.

Ontem foi o dia da forra. O dia pra libertar todos os demônios e abraçar a alegria tão característica do rubro-negro. Foi dia de abraçar a verdadeira felicidade e ver no rosto de cada desconhecido do seu lado a longevidade dos sonhos de uma nação.

Um.

Dois.

Três.

Quatro.

Cinco.

Sem perdão. Como um rolo compressor que enfia a faca e roda. Tal qual um boxeador que vai ensadecido em busca do nocaute.

Era tanto que ninguém entendia. O rubro-negro olhava pros lados na arquibancada e não sabia o que fazer. A torcida ficava confusa, não sabia que música puxar. Os gritos não eram mais harmoniosos e nada saía como deveria. 

Justamente porque a verdadeira festa é a pura anarquia.

Ninguém entendeu. Era demais para explicar, era demais pra ser verdade. O rubro-negro voltou para para casa sem querer dormir, com medo de ter sido apenas um sonho impossível. E quando não entendemos, fazemos do fato um mito. Inexplicável. Sobrenatural. Ungido. A ser contado de geração em geração, de avô para pai, de pai para filho. Um atropelo inacreditável e inapelável.

O Flamengo está na final da Libertadores, amigos, e isso é o que importa.

É claro que podemos encontrar explicações racionais. Mas especialmente no futebol, entre o fato e o mito, eu fico com o mito.

E ontem tivemos o marco fundamental. Se é de origem de uma nova era, não sei. A única certeza é que este, de fato, é um Flamengo mitológico.

No mais,
A maior da saudações rubro-negros, de mais um dos flamenguistas que viveram a melhor noite da suas vidas.

(Foto: Alexandre Vidal/Flamengo)

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