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Flamengo: odiado por opção.

Bolsonaro vai a jogo do Flamengo em Brasília ao lado de Moro | VEJA

Alguém uma vez disse que o fascismo é o ódio pelo ódio. É o sequestro oligárquico dos desejos coletivos, a revolução em nome da autoridade e da ordem, a rebelião em nome da submissão. Ao mesmo tempo, é aquilo que mais desperta ódio também em outros. Como me dói ver o Flamengo explicar isso tudo com tanta clareza.

Desde que o fascismo presidencial ficou mais óbvio na pandemia, Landim e seus blue caps resolveram abaixar a cabeça para tudo. Forçaram a volta do futebol, soltaram seus cachorros mais barulhentos (leia-se BAP) e rumaram pra um elitismo prosaico e tacanho, mandando a torcida rubro-negra para aquele lugar enquanto extorquiam-na por sua paixão. Abanaram seus rabinhos pro presidente e resolveram fazer sua revolução: brigar com a globo por direitos de transmissão, contra o seu monopólio.

O presidente líder clânico da direção rubro-negra sancionou a nova MP dos direitos de arena. Agora só é necessário o acordo com o mandante ao veículo de comunicação que deseja transmitir um evento esportivo. Sendo o único time do carioca sem contrato com a globo, o Flamengo pode transmitir seus jogos no Youtube e bater de frente com a emissora.

Como se já não bastasse forçar a volta do futebol enquanto morrem duzentas pessoas por dia no Rio de Janeiro, fizeram o Flamengo jogar para ninguém ver e depois ainda tiveram a mesquinharia de cobrar dez reais do rubro-negro para que ele assistisse a um simples e sem propósito jogo contra o Volta Redonda, por um campeonato irrelevante. 

E pior ainda, quando não lhe conveio, tentaram desfazer sua ideia dos direitos de arena quando tentaram impedir a transmissão única do jogo de ontem com o Fluminense. 

Vergonha absoluta.

O Flamengo não soube ganhar, não soube perder. Não soube nem ir para jogo. Quando expliquei a situação de ontem para minha namorada totalmente desconectada do mundo da bola, ela resumiu em uma frase: "E o Flamengo tá achando que é dono da bola, é?"

Pois é. O Flamengo experimenta e explica o fascismo na sua pretensão pelo domínio, sem ter direito algum aele. Brigou com a Globo por simples submissão ao presidente. Não há motivo do clube para brigar com a emissora, não houve maior ganho de renda. Não teve nada.

E pior ainda, sequestrou o desejo da torcida de ver um Flamengo forte e soberano, e convenceu-a, utilizando a sua paixão mais cega, de que sua briga era justa. Sequestrou nosso desejo de ver o Flamengo jogar em nome de uma bandeira elitista, que jogou a história do Flamengo no lixo.

Outro também disse: Derrotas e vitórias vem e vão. Biografia só existe uma.

A mancha que fica na história do Flamengo será eterna e me envergonha mais do que qualquer humilhação. Santo André, América do México...Nada disso chega perto da minha tristeza de ontem a noite, que é só mais um gota de um copo que completou 17 meses transbordando desde a morte dos dez sonhos incinerados.

E periga virar uma marca. O Flamengo pode tornar-se o clube do fascismo brasileiro. Sinônimo de tudo o que há de pior.

A diretoria quer fazer uma revolução, que só beneficia ela mesma, em nome do presidente da República, não do Flamengo ou de sua torcida. Rebela-se contra a Globo em nome da sua submissão a um chefe genocida, responsável pela morte de milhares de rubro-negros em meio a 70 mil vidas já perdidas na pandemia. E despertou o ódio nos outros.

O que mais doeu ontem não foi nem de longe Rafinha ter perdido o pênalti. Com isso nem me importei. A facada no peito veio de saber que era ótimo que aquilo tivesse acontecido. Se eu fosse torcedor de outro time, estaria torcendo contra o Flamengo pelo bem do futebol e da vida, contra o que o Flamengo agora simbolizava.

Clubes de futebol jamais serão só clubes dependentes de vitórias e derrotas. Nenhum torcedor torce para o Flamengo só pelos 11 que atualmente vestem a camisa rubro-negra. A paixão vem da história, de tempos, de conquistas e de passados, de lutas e tradições. De símbolos. De história. De significado.

Ontem após o jogo eu vi meu twitter em polvorosa, vibrando com a derrota do Flamengo. É claro que o Flamengo tem todos os motivos para ser odiado já normalmente. É o clube com mais torcida, que mais recebe dinheiro e, hoje, com o melhor time. Mas esses são todos motivos tacanhos e não despertam o ódio real. Despertam o ódio invejoso, que encobre a admiração respeitosa.

O ódio de ontem não. Era um ódio moral, um ódio real, despertado pelo que de pior o Flamengo tem feito. O ódio fascista que desperta a raiva indignada.

O pior de ontem não foi ver o Flamengo ser odiado mais uma vez por tantas pessoas. O pior foi saber que elas estão certas.


(Foto: Veja)

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