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Um jogo de gigante (do Flamengo)


Enquanto ia para o bar ver o suposto jogaço de hoje a noite, vinha lendo a Pirâmide Invertida, livro de história da tática. O trecho em questão falava sobre o futebol soviético dos anos 1980, do bielorusso Malefeev, dono da expressão "futebol sincero". Seu time jogava só com a bola, abandonava as faltas e o jogo físico. Lembrava os tempos do futebol romântico. Fechei o livro, desci do ônibus e cheguei no bar. Veio a escalação do Flamengo. Lembrar da passagem que havia acabado de ler foi inevitável.

O Flamengo foi a campo com seis jogadores da base. Repito: SEIS jogadores da base. E mesmo os supostos veteranos nem eram tão velhos assim. A média de idade era de 23 anos. Sabendo quem estava do outro lado já imaginei um jogo em que o Flamengo apanharia bastante. Podia ser um fator a influenciar o jogo.

E foi. Pelo menos nos primeiros minutos. Os 15 iniciais pareciam de uma pelada entre veteranos e garotos. O time rubro-negro começou tentando botar a bola no chão no primeiro minuto. Mas começou a perder todas as divididas seguintes. O Palmeiras pressionou e amassou um Fla que não conseguia sair com a bola. Para atacar, investia em uma clara orientação de Roger. Vinícius não é Everton e não volta para ajudar Renê. E após dois cruzamentos seguidos nas costas do lateral o Palmeiras fez 1x0, pondo fim a nova tentativa de recorde de Diego Alves.

Porém, do gol pra frente só deu Flamengo. Não conseguia criar jogadas mas tomou conta do jogo. Mesmo com Paquetá ausente vários minutos tentando solucionar seu problema com as lentes de contato. Trocava passes e dominava a frente da área, mas não conseguia entrar. Muito por conta das seguidas faltas da equipe alviverde. Marcos Rocha abusou das faltas sobre Vinicius e Felipe Melo dava bordoadas seguidas no meio da cancha. O juiz nada via, e deixava o jogo seguir em todas elas. No geral, o Flamengo só ameaçou mesmo nos últimos minutos da primeira etapa.

Na volta, parecia que o jogo tomaria o mesmo rumo. O Palmeiras assustou bastante, principalmente jogando bolas na área. Parou em Diego Alves. Como é bom ter goleiro. Duas defesaças, especialmente em cabeçada de Bruno Henrique. Contava também com atuação brilhante do zagueiro Thuler (19 anos), que foi o melhor em campo no Allianz Parque. Foi ele o autor do gol que mudou a história do jogo, em cruzamento de Rodinei, na marca dos 10 minutos.

Dali em diante, o jogo era do Flamengo. Bola no chão, contra um Palmeiras extremamente irritado, que continuava batendo nos meninos da Gávea. Nos minutos seguintes, quase virou, em gol perdidíssimo de Vinicius Jr., que poderia ter se despedido com a máxima glória.  O alviverde via os meninos abusados controlarem a peleja e foi perdendo a paciência.

Chegamos então a um dos lances capitais do jogo. Quando Vinicius adiantou a bola todos os rubro-negros já sabiam o que viria. Felipe Melo chegou rasgando, com toda a força que tinha, para demonstrar quem manda em campo, e levantou Vinicius. Direto no tornozelo, feio e desleal. Um lance claro de expulsão, no qual ficou clara a bananice da arbitragem, que usou só o amarelo. A partir daquilo, tudo estava permitido no gramado.

Mesmo assim, o Flamengo ainda tentava jogar bola. E o árbitro continuava se atrapalhando. Interrompeu uma jogada de vantagem clara para o Fla em jogada perigosa de Vitor Luís. O Palmeiras podia tudo dentro de casa e isso ficava simbolizado em Dudu mais do que em qualquer outro. Enquanto Vinicius se demonstrava abusado, Dudu se mostrava infantil. Brigava em todas as bolas, chiava com a arbitragem o tempo todo. Chegou a cair em cera patética de Diego Alves que claramente o deixou mais irritado. 2 minutos depois, viria o lance que deu início ao fim.

Barbieri já havia feito as alterações para segurar o resultado, que era melhor para o Fla. Dudu recebe a bola na meia, dribla Cuellar e cai. O colombiano invocado chega com tudo e na tentativa seguintes de drible tira a bola com virilidade. Não vi nem falta. O dono do meio de campo rubro-negro jogou feio, mas não foi desleal. Tomou a bola com força e mostrou que não tinha medo de Dudu. Ninguém é obrigado a jogar bonito. O ex-(não a toa)-capitão palmeirense levantou invocado e deu uma bordoada em Cuellar, projetando a apatia do volante. Mas nem ele, nem os garotos deixaram passar.

Confusão generalizada. Acusem-me de clubismo mas analisando friamente, diria que apenas Jonas merecia a expulsão. Argumento:

Cuellar não fez nada. Apenas levantou depois da agressão e encarou Dudu. Não agrediu ninguém. Inclusive, já sabendo que provavelmente seria expulso, simplesmente aguardou a decisão do juiz parado no meio do gramado. Episódio semelhante ao do clássico contra o Vasco. Perda enorme para a volta da copa. Um monstro no meio de campo. Tem merecido um texto só para ele.

Henrique Dourado tomou um soco mas não agrediu ninguém. Ficou de longe xingando, segurado por Thuler. Nunca tinha visto jogador ser expulso por xingamento.

Jonas mereceu, mas sua atitude foi completamente justificada. Em meio as discussões, o goleiro Jailson saiu de seu gol, pegou Jonas pelo pescoço e o arrastou por alguns metros. Tentar revidar com um chute e um tapa era o mínimo para ele.

O assoprador de apito, omisso durante o jogo todo, tentou agradar a todos mais uma vez. Como um professor que tira de sala dois alunos indefesos quando a sala está muito agitada, o árbitro expulsou três de cada lado. Para completar, terminou a peleja muito antes do que devia, e justamente quando o Flamengo tinha a bola para atacar o time que tinha Moisés alçado ao cargo de goleiro.

Resultado bom, não excelente. Mas dadas as circunstâncias o Flamengo foi imenso. O time de garotos jogou bola, com ela no chão, e controlou o jogo todo, com exceção dos primeiros minutos de cada tempo. Tomou bordoadas e não afinou, tentando sempre responder na bola, jogando seu futebol sincero. Foi muito maior do que o Palmeiras no Allianz Parque. Jogou como o seu torcedor tem pedido e merece.

Depois da Copa, já temos pedreira. Jogo no Maracanã contra o vice-líder São Paulo. Sem volantes, diga-se de passagem, os dois expulsos. Sem Henrique Dourado, mas isso é reforço. Sem Vinicius, mesmo que fique, suspenso por amarelos. 

Parada para a Copa deixa o rubro-negro bastante animado. Líder, jogando bola e se portando como grande em momentos de extrema adversidade. Durante o próximo mês, é um olho na Copa e outro no mercado, para suprir as saídas e carências do elenco. Mas até lá estaremos orgulhosos. O Flamengo fez um jogo de gigante, finalmente, e que volte da Copa jogando o mesmo futebol sincero. Se assim for, certamente seremos campões.

No mais, 
Saudações Rubro-Negras.

(Foto: Fernando Dantas/Gazeta Press)

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